Na frente da padaria Vila Grano é possível de se locomover bem, porém a concentração de pessoas também está fortíssima. É em cima da mureta na frente da Vila Grano que acontece uma situação nova.
As pessoas envolvidas são duas garotas, um garoto e um desconhecido.
Os três mais jovens estavam conversando sem se preocupar com grande coisa, são brancos; as duas garotas têm cabelos agradáveis, longos e elas visivelmente cuidam deles, o garoto tem um cabelo curtinho arrumado, o que poderia se chamar de neutro, as duas meninas também parecem ter passado um pouco de maquiagem, sem exageros; as roupas são bonitas, bem passadas, limpas, secas, parecem ter tomado pelo menos um tempinho para se arrumar; os três estão com uma garrafa de vodca Smirnoff que foi comprada por outra amiga, que no momento está dentro da padaria, as garotas tomam alguns goles, às vezes.
O desconhecido estava sozinho, relativamente próximo, olhando por vezes alguns grupos de pessoas envolta, é negro; ele é praticamente careca, mais uma vez é um cabelo que poderia ser considerado neutro; sua expressão é estranha, ele parece cobiçar tudo o que está envolta dele, sua expressão o faz parecer desengonçado, apesar dele não estar cambaleando ou andando torto, ele parece estar querendo fechar os olhos, mas estes não parecem querer que isso aconteça; ele está vestido com uma regata vermelha sem estampa que não parece ser passada há algum tempo, um short de alguma cor neutra que combinaria com qualquer blusa que ele quisesse usar, e um chinelo branco no pé, o chinelo não está mal-cuidado de forma alguma, se ele dissesse a qualquer um que acabou de comprá-lo, ninguém duvidaria.
Ao longo da conversa, os três amigos olham o desconhecido de relance, pouquíssimas vezes, mas o suficiente para perceberem que ele está lá, e que ele é como um estrangeiro no bairro, por estar menos arrumado que qualquer outra pessoa.
De repente, o desconhecido chega para os três amigos e, com um tom que poderia ter sido usado para um assalto, mas com um volume muito menor do que o que seria necessário, diz que gostaria de tomar um gole da vodca. O garoto, como primeiro reflexo, diz com um tom de desculpas que não dá pois ele é um desconhecido; as garotas dizem mais que elas não podem pois a vodca não é deles. O desconhecido insiste, agora com um tom mais enérgico, fazendo com que parecesse que se ele não tomasse um gole da vodca, ele morreria, porém sempre no mesmo volume. Os três continuam a dizer não, os três ainda num tom de desculpa. O desconhecido insiste mais uma ou duas vezes, aumentando um pouco o volume de sua voz, mas sempre muito baixo, até que ele desiste, aceitando que não terá o que queria.
Depois do desconhecido se afastar, os três ficam em silêncio durante um tempo, as duas garotas parecem muito mais perturbadas que o garoto. Até que uma delas diz "Que tenso." e as duas meninas falam que se sentem mal, pois elas se perguntam se elas teriam aceitado dar uns goles para ele se ele estivesse de polo, ou se ele fosse mais bem arrumado, se elas não teriam dado. O garoto diz que não, não se pede vodca de um grupo de desconhecidos, e ele diz que não daria da vodca para ninguém. Uma das garotas rapidamente coloca que se a pessoa fosse bonitinha, os três teriam considerado um pouco sobre dar um gole para ela. O garoto retruca que se ele tivesse sido abordado de uma maneira diferente talvez tivesse considerado, aquele desconhecido parecia sob efeito de várias drogas, alega o garoto. A garota com quem ele discutia não parece convencida.
Preconceito?

